A primeira reunião do novo mandato na DAMA Brasil, com a equipe da presidência, aconteceu há poucos dias. Em 12 de abril de 2026, recebi a honra de ser nomeada Ethical Data & AI Governance Advisor to the Presidency, posição que ocupo para o biênio 2026-2028. Compartilhei a notícia no dia. O que não compartilhei, por ser impossível comprimir em um post, é o que a posição significa quando se entra na operação, quando se conversa com quem está construindo o capítulo brasileiro e quando se começa a entender como as decisões são tomadas.
Esse artigo é o espaço para isso. Para quem acompanha minha trajetória em governança de dados, privacidade e IA, ele responde a uma pergunta que aparece de formas diferentes nas conversas: o que é o DAMA, na prática? O que faz quem contribui lá? E por que isso importa para o ecossistema brasileiro?
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O que é o DAMA International e o DAMA Brasil
O DAMA International, Data Management Association International, é a associação global de referência em gestão de dados. Fundado em 1988, está presente em mais de 40 países por meio de capítulos locais. Não é uma certificadora, não é uma escola, não é uma consultoria. É uma associação de profissionais — DPOs, CDOs, arquitetos de dados, engenheiros de dados, especialistas em governança e em privacidade — que se reúnem para sistematizar, desenvolver e disseminar as melhores práticas da área.
O DAMA International publica o DAMA-DMBOK, o Data Management Body of Knowledge, o corpo de conhecimento que organiza as disciplinas de gestão de dados e serve de base para a prática profissional em todo o mundo. Essa publicação é o que faz do DAMA uma referência global: não é uma marca, é um acervo técnico construído por profissionais, revisado por profissionais e aplicado por organizações dos mais diversos setores.
No Brasil, o DAMA Brasil é o capítulo nacional. Reúne profissionais que atuam com dados em organizações de todos os setores — financeiro, saúde, varejo, indústria, setor público — e organiza grupos de trabalho, eventos e boas práticas adaptadas à realidade local. Essa adaptação inclui, necessariamente, a interface com a LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, e com o debate regulatório em curso sobre inteligência artificial no Brasil.
O DAMA-DMBOK: o corpo de conhecimento que organiza a disciplina
O DAMA-DMBOK, em sua segunda edição, organiza a gestão de dados em 11 áreas de conhecimento: governança de dados, arquitetura de dados, modelagem e design de dados, armazenamento e operações de dados, segurança de dados, integração e interoperabilidade de dados, gestão de documentos e conteúdo, dados de referência e dados mestres, data warehousing e business intelligence, gestão de metadados, e qualidade de dados.
Cada área tem seus processos, papéis, atividades e entregáveis definidos. A estrutura tem consequências práticas imediatas. Quando uma organização diz que vai "governar seus dados", mas não tem clareza sobre em qual dessas áreas está atuando, nem sobre como cada uma se conecta às demais, o programa fragmenta. O DAMA-DMBOK oferece exatamente esse mapa: não é um método prescritivo, é um vocabulário compartilhado e uma visão sistêmica que permite que DPOs, CDOs, juristas e executivos conversem a partir de um referencial comum.
Conhecer o DAMA de fora é uma coisa. Entrar na operação, conversar com quem está construindo o capítulo brasileiro e entender como as decisões são tomadas é outra. Tem peso institucional que só se percebe por dentro.
O que é, na prática, o papel de Ethical Data & AI Governance Advisor to the Presidency
A posição de Ethical Data & AI Governance Advisor to the Presidency da DAMA Brasil existe porque governança de dados e governança de inteligência artificial são, cada vez mais, inseparáveis — e porque a dimensão ética dessa conversa não pode ser periférica.
Quando uma organização decide implementar um modelo de IA para apoiar decisões, ela está, ao mesmo tempo, tomando decisões de governança de dados (quais dados o modelo usa?), de privacidade (esses dados incluem informações pessoais? foram coletados com base legal adequada conforme a LGPD?), de arquitetura (o modelo é auditável? seus resultados são rastreáveis?), e de ética (os resultados são justos? discriminam grupos vulneráveis?).
Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida isoladamente. O papel de advisor de governança ética existe para articular esses campos e contribuir com o desenvolvimento de boas práticas, referenciais técnicos e debates que o ecossistema brasileiro precisa avançar.
Para essa posição, trago mais de 30 anos de experiência em TI e governança, com passagens por indústrias altamente reguladas. Atuei por mais de duas décadas em multinacionais do setor farmacêutico, Sanofi, Merial, Boehringer Ingelheim e Rhodia-Mérieux, onde os padrões de validação de sistemas, de controles internos e de qualidade de dados eram exigências, não escolhas. Nesse percurso acumulei clareza sobre o que significa governança funcionar de fato, e não apenas existir no papel.
Sou cofundadora da Privacidade+, DPO certificada e Lead Auditor das normas ISO/IEC 27001, 27701 e 42001, essa última a norma internacional de sistemas de gestão de inteligência artificial. Atuo na Keyrus em projetos de Data and AI Governance para organizações de médio e grande porte. O que aprendi nesse percurso sustenta a posição que defendo há tempos: governança não é controle, é vantagem competitiva.
O peso institucional que só se percebe por dentro
O DAMA Brasil é uma associação sem fins lucrativos. Todos os que contribuem — da presidência aos advisors e grupos de trabalho — doam tempo e conhecimento. Não há remuneração. Há propósito: fortalecer a comunidade brasileira de profissionais de dados, elevar o nível das práticas e colocar o Brasil em posição de protagonismo no debate global sobre governança de dados e IA.
Nessa gestão 2026-2028, o presidente é Sergio Silva. Ao lado dele, Gustavo Artese integra a presidência. Uma liderança comprometida com maturidade real, com debate de substância, e com uma agenda que o setor precisa enfrentar com mais coragem: soberania de dados, ética no uso de IA e a necessidade de construir capacidade nacional em gestão de informações críticas.
No DAMA, ninguém lidera sozinho. Todos contribuem. Esse modelo associativo — voluntário, técnico, comprometido com o bem da comunidade — é parte do que torna a instituição sólida. A credibilidade do DAMA-DMBOK vem exatamente daí: é produzido por profissionais que não têm interesse comercial no resultado, apenas técnico.
Entrar nessa operação e perceber como as decisões são tomadas, com que nível de cuidado e com que horizonte de longo prazo, é o tipo de constatação que reforça o compromisso.
Governança de dados é vantagem competitiva, não controle
Esse é o posicionamento que defendo há tempos, e que a nova responsabilidade no DAMA Brasil reforça.
Quando uma organização trata dados como ativo estratégico — com inventário atualizado, qualidade mensurada, responsáveis definidos, políticas de retenção e descarte claras — ela decide melhor. Porque a decisão parte de informação confiável. Ela se expõe menos. Porque sabe o que tem, onde está, quem acessa e com que finalidade. E cresce em terreno mais firme. Porque constrói confiança com clientes, parceiros, reguladores e colaboradores.
O contraponto é real e documentado em casos concretos: organizações que tratam governança como custo ou como obstáculo regulatório terminam investindo em IA sobre dados que não conhecem, expondo-se a riscos que não mapearam, e respondendo a incidentes que poderiam ter sido prevenidos. O dado mal governado não é neutro. Ele amplifica decisões ruins.
No contexto de IA, isso se torna ainda mais crítico. Modelos de aprendizado de máquina aprendem com os dados que recebem. Se esses dados refletem vieses, inconsistências ou informações desatualizadas, o modelo não vai corrigi-los: vai codificá-los. Governança de dados é, portanto, pré-requisito para governança de IA. Não o contrário.
Os 6 princípios da IA Confiável — responsável, justa, com privacidade aplicada, robusta, explicável e transparente — não são aspirações descoladas da realidade operacional. São resultados que dependem, diretamente, da qualidade da governança de dados que os sustenta.
O que está sendo construído e o que vem por aí
Nos próximos meses, vou documentar nesse espaço o que está sendo construído pelo DAMA Brasil na frente que integro: os debates em curso, os referenciais que estamos desenvolvendo e as questões que, na nossa visão, o setor ainda precisa enfrentar com mais coragem.
Entre os temas que mais urgem: a interface entre a LGPD e a governança de IA, a necessidade de frameworks de avaliação de risco adaptados à realidade das organizações brasileiras, e o papel da soberania de dados na agenda nacional de desenvolvimento tecnológico.
O DAMA Brasil não opera isolado nessa agenda. Dialoga com a ANPD, Autoridade Nacional de Proteção de Dados, com o debate legislativo em torno do PL 2.338/2023, o projeto de lei de IA em tramitação no Brasil, com entidades do setor privado e com a academia. Ter um capítulo nacional ativo e tecnicamente sólido é parte da resposta brasileira a uma pergunta que o mundo inteiro está tentando responder: como governar a inteligência artificial de forma responsável?
A resposta começa pelos dados. E começa pela governança.
Perguntas frequentes sobre DAMA Brasil e Governança Ética de Dados
O que é o DAMA International? O DAMA International, sigla para Data Management Association International, é a principal associação global de profissionais de gestão de dados. Fundado em 1988 e presente em mais de 40 países, é responsável por publicar o DAMA-DMBOK, o corpo de conhecimento de referência da área, e por congregar profissionais que atuam com dados em organizações dos mais diversos setores e países.
O que é o DAMA-DMBOK? O DAMA-DMBOK, Data Management Body of Knowledge, é o framework de referência em gestão de dados publicado pelo DAMA International. Organiza a disciplina em 11 áreas de conhecimento — governança de dados, arquitetura, modelagem, armazenamento, segurança, integração, gestão de documentos, dados mestres e de referência, business intelligence, metadados e qualidade de dados — e serve de base para programas de governança em organizações do mundo inteiro.
O que é o DAMA Brasil? O DAMA Brasil é o capítulo nacional do DAMA International. Reúne profissionais brasileiros que atuam com dados e governança, promove grupos de trabalho, eventos e boas práticas adaptadas à realidade do Brasil, incluindo a interface com a LGPD e o debate regulatório sobre inteligência artificial.
O que significa governança ética de dados e IA? Governança ética de dados e IA é a prática de gerenciar dados e sistemas de inteligência artificial com responsabilidade, transparência e respeito aos direitos das pessoas cujas informações são tratadas. Envolve conformidade legal, como LGPD e GDPR, mas vai além: inclui equidade no uso de dados em sistemas automatizados, privacidade como valor embutido no design dos sistemas, rastreabilidade das decisões algorítmicas e prestação de contas sobre os impactos gerados.
Por que governança de dados é considerada vantagem competitiva? Organizações que governam bem seus dados tomam decisões com base em informações confiáveis, reduzem a exposição a riscos regulatórios e operacionais, e constroem confiança com clientes e parceiros. No contexto de IA, essa vantagem se amplifica: modelos treinados sobre dados bem governados produzem resultados mais robustos, auditáveis e defensáveis diante de reguladores e do público.
Qual é o papel do DAMA Brasil no ecossistema de dados e IA do Brasil? O DAMA Brasil contribui para elevar a maturidade do ecossistema brasileiro em gestão e governança de dados. Promove a adoção de boas práticas, forma profissionais e participa do debate regulatório e técnico sobre dados e IA no país. Como capítulo de uma entidade global presente em mais de 40 países, conecta a prática brasileira ao debate e às referências internacionais da área.
Fazer parte é uma escolha de contribuição
Integrar o DAMA Brasil não é uma linha no currículo. É uma escolha de contribuição, concreta, voluntária e técnica. O que está sendo construído nessa gestão importa para o ecossistema brasileiro de dados e IA, e esse espaço vai documentar parte desse processo.
Governar dados com ética não é uma aspiração distante. É uma prática que pode ser estruturada, medida e ensinada. E é exatamente isso que o DAMA Brasil, em diálogo com profissionais, academia e reguladores, está comprometido em construir no Brasil.
Nos próximos artigos, vou aprofundar os temas que essa posição traz à tona: soberania de dados, a agenda da ANPD, o que ainda falta na regulação de IA brasileira e o que as organizações deveriam estar fazendo agora para não se arrepender depois.
Sobre a autora
Consuelo Rodrigues é especialista em governança de dados, proteção de dados, privacidade e governança de inteligência artificial. Cofundadora da Privacidade+, é DPO certificada e Lead Auditor das normas ISO/IEC 27001, 27701 e 42001. Foi nomeada Ethical Data & AI Governance Advisor to the Presidency do DAMA Brasil para o mandato 2026-2028. Atua na Keyrus em projetos de Data and AI Governance para organizações de médio e grande porte. Com mais de 30 anos de experiência em TI, tem passagem por multinacionais farmacêuticas altamente reguladas e formação pelo MBA da Fundação Dom Cabral. É membro da APDADOS, Associação Nacional dos Profissionais de Privacidade de Dados.
Publicado em: [data de publicação] Última atualização: [data de atualização] Categoria: Governança de Dados | DAMA Brasil | IA Responsável Tags: DAMA Brasil, DAMA-DMBOK, governança de dados, governança de IA, IA confiável, LGPD, soberania de dados, proteção de dados, DPO, IA responsável
